A força do Movimento Associativo

Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada

 

Eduardo Alves da Costa

Começo essa reflexão com um trecho do poema “No caminho com Maiakovski” do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa. Esse poema foi uma das marcas do movimento das “Diretas Já” nos anos 80 e circulou em correntes de e-mail nos meados de 90. Esse poema é uma tapa na cara dos humanos que estão adormecidos e não lutam, nem se unem contra toda forma de autoritarismo e injustiça que possa haver num país, num estado, numa cidade ou na sua empresa. Recordando a potência da fala de Martin Luther King quando ele falou: “O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas más, mas a indiferença e o silêncio das pessoas boas”.


Vou compartilhar um pouco da minha história de um humano que não quis calar perante injustiças e autoritarismo momentâneo na minha trajetória profissional. Entrei na Caixa em 1981 no concurso para Auxiliar de Escritório. Antes desse concurso a admissão na Caixa era para escriturário. Enquanto você não se apropria de fatos e dados concretos, você vai seguindo como se tudo estivesse de forma justa. Mas não foi o que aconteceu com todos os empregados que entraram na Caixa entre 1981 e 1983 como auxiliares de escritório. Realizávamos as mesmas tarefas que os escriturários, mas com uma redução de aproximadamente 40% no salário. Com a crescente insatisfação dos auxiliares de escritórios no país todo, surge em meados de 1983 o primeiro movimento reivindicatório de empregados da Caixa. Esse movimento foi tomando uma dimensão tal que a Caixa tomou a decisão de realizar dois concursos em 1984 para o cargo de escriturário. Esse movimento foi o embrião para o movimento seguinte pela luta das 06 horas e do direito a sindicalização que culminou com a primeira paralisação de toda a Caixa em 30 de outubro de 1985, com adesão de mais de 90% dos empregados, inclusive gestores de todos os níveis hierárquicos. Participei ativamente desses movimentos, tentaram me calar e aos meus colegas que lutavam por justiça e uma Caixa melhor, mas não conseguiram. Juntos somos e sempre seremos mais fortes. Essa foi a maior lição que aprendi participando desses movimentos. Um dos depoimentos mais impactantes que tive acesso foi de um ex-superintendente da Caixa que pediu que fosse publicado no jornal LUTA BANCÁRIA do sindicato do Rio Grande do Sul em 08/10/1998 com o título “Mea Culpa”. Segue alguns trechos do seu desabafo:

A vida humana é cheia de situações e alternativas que, quando estamos imersos nela, nem sempre é possível discernir com sabedoria. A rotina, a pressão e o senso de responsabilidade muitas vezes obliteram nossa visão e condicionam nosso raciocínio, impelindo-nos atitudes erradas, equivocadas ou, no mínimo, de valores duvidosos. Estabeleço essa filosofia inicial para dar suporte aos leitores, ao mesmo tempo em que reconhecer culpas e distorções de atitudes. É um desabafo, dramático, quem sabe, mas vindo do coração, e que talvez ajude as gerações presentes e futuras. Durante trinta anos fui funcionário da caixa, exercendo por vinte e oito anos, as funções de Caixa, Gerente e Gerente Geral, bem como superintendente, só para citar algumas, usando a nomenclatura atual. No exercício de funções de confiança, seja como simples gerente de agencia, nas regiões mais ínvias do Rio Grande do Sul, seja no exercício de superintendência (Paraíba e Mato Grosso do Sul), sacrifiquei o que possuía de melhor, família, saúde, círculos de amizades, para atender aos chamados da caixa, no lugar em que fosse necessário o meu concurso. Imbuído de um senso de profissionalismo irracional, quase fanático, defendia as ideias da empresa em superveniência 'as minhas, além de impô-las aos meus subordinados como regra, dogma e paradigma. Nesse fanatismo, como se fosse um acionista da caixa, não admitia que alguém reclamasse do salário, das exigências normativas, das horas trabalhadas, da exigência das tarefas ou da qualidade duvidosa de algumas instalações. Eu hoje me envergonho desse tipo de atitude. Recordo, com um peso na consciência, as tantas vezes que, usando mil artifícios, desde a coação psicológica até o terror das ameaças, esvaziei greves e detonei processos de representação classista. Afinal, como eles podiam ser tão egoístas, pensar em seus salários, em suas famílias, no futuro, e deixar perder todo um trabalho junto ao mercado, 'a clientela. Hoje eu vejo uma classe acovardada, amordaçada por uma tirania neoliberal pior que a levada a efeito pela ditadura e, fico fazendo minhas conjeturas. Até que ponto, eu e os colegas da minha geração, somos responsáveis por esse esvaziamento? Estava há tempos já, para publicar esse desabafo...


Escrevo essa reflexão após ouvir o áudio do nosso presidente da AGECEF/PB Sandro Brito, convocando para uma campanha de novas associações de empregados gestores e futuros gestores da Caixa. A história nos mostra a força que existe no movimento associativo, quando se busca, justiça, transparência, ética e possibilidades de ascensão de forma justa e igualitária.


Finalizo compartilhando o meu sentimento sobre minha experiência de mais de 35 anos na Caixa. Tenho muito orgulho de ter trabalhado na Caixa, aprendi muito, errei, acertei e fiz grandes amizades que perduram até hoje. Como qualquer empresa que é constituída de seres humanos, existem erros e acertos em toda a sua trajetória, mas tenho a convicção que nossa empresa é uma empresa melhor porque juntos lutamos para engrandecê-la.


Abraços a todos.



Alberto Carlos Nóbrega Paiva – Aposentado Caixa

Psicólogo clínico/Coach Sistêmico com foco em liderança e Projeto de Vida